Falando um pouquinho de cura através da mitologia africana.

As Folhas de Ossaim

Ossaim é filho de Nanã Burucu, a velha deusa que ajudou a criar o homem com o lodo do fundo dos lagos (sim, foi com lodo mesmo!). Irmão de Omulu, o deus da varíola e das doenças contagiosas, passa sua vida a curar as moléstias que seu irmão sisudo, por algum motivo, se compraz em espalhar.

Ossaim exerce seu ofício utilizando-se de folhas e ervas medicinais.
Deste modo, sempre que há uma doença entre os deuses ele recorrem à sua cabacinha de ervas (também dita ató). Naturalmente que há um preço para tal, mas sempre um preço justo. (Que ele tenha cobrado, certa feita, pela cura da sua própria mãe não quer dizer nada, já que, segundo o preceito, cobrar pela cura é parte também da magia da cura).

Mas, como em todo monopólio, também aqui se geraram, ao longo do tempo, alguns descontentes.

– Já estou farto de, a cada dorzinha, ter de ir mendigar a Ossaim pela cura! – disse um belo dia Xangô, o deus do trovão, que de tanto cuspir fogo vivia com a boca cheia de queimaduras.

Outros deuses também se associaram rapidamente à revolta.

– É isto aí, basta de rastejarmos! – disse Oxóssi, o deus da caça.

– Que ele nos revele, já, os segredos da sua cabacinha! – disse Exu, o deus do leva-e-traz.

Então, foram todos em passeata à casa do deus da cura e lá aprontaram uma senhora alaúza.

– Basta de segredos! – exigia Oxum, a deusa das águas doces.

– Queremos, mais que tudo, a cabacinha! – berrava Exu a plenos pulmões.

Ossaim finalmente surgiu e escutou-se uma voz fininha, mas extremamente ríspida, exclamar:

– Que bródio maldito é este na porta da minha casa?

Quem falara, no entanto, não fora o deus da cura – já que ele nunca falava -, mas seu minúsculo porta-voz chamado Aroni, um duende pernalta da floresta. (Dizem que foi ele quem ensinou ao deus todos os segredos da cura, daí sua extraordinária influência)

Os deuses, porém, continuaram a dirigir suas queixas diretamente a Ossaim.

– Vamos, queremos o segredo da cura! – disseram todos, olhando fixamente para o deus.

Ora, quem conhecesse minimamente o  pequeno duende deveria saber que nada o irritava mais poderosamente do ver-se ignorado.

– Como ousais vir perturbar meu sossego? – disse ele, saltitando furiosamente na ponta do pezinho.

– Oh!, o seu sossego, é claro! – disse Xangô, colando o rosto ao do deus. – Parece que sossego é uma coisa da qual somente você desfuta, não é?

– Sim, é isso aí! – disse, inteiramente descabelada, Iansã, a deusa dos ventos. – Se tivesse de implorar a outrem pela sua saúde, não estaria aí neste sossego todo!

– Idiotas, mal sabeis o que dizeis! – disse Aroni, de cabecinha erguida e mãozinhas nas ancas.

De novo, Aroni foi totalmente ouvido, mas inteiramente não visto.

– Até quando, a cada novo resfriado, terei de vir mendigar as suas folhinhas? – disse a deusa dos rios a Ossaim, totalmente rouca, puxando para o lado a sua cabeleira molhada.

– Por que não experimenta secar de vez em quando o chinó, belezinha? – disse Aroni, lá embaixo.

– Atrevido! Dispenso as suas gracinhas, ouviste? – disse Oxum, lá em cima, a Ossaim.

Então Xangô, farto do bate-boca, deus seu ultimato:

– Vamos, passe-nos já as malditas folhas!

– É isto aí! Abra de uma vez a maldita cabacinha! – disse Exu, de ogó em punho.

– Malditos atrevidos! Quem pensais que sois para me intimar desse jeito? – disse o símile de saci, a pular freneticamente. – Dai no pé imediatamente ou chamarei meu irmão Omulu para espalhar em todos vós a varíola! (Ossaim, com a mão estendida, interpretava-lhe plasticamente as palavras do anão.)

No mesmo instante, as faces dos deuses tornaram-se mais brancas que as palmas das suas mãose, sem vergonha alguma, deitaram a correr para todos os lados.

– Ah! Ah! Ah! – fazia o duende, a segurar a pancinha com as duas mãozinhas. – Que valentões sois agora! Ah! Ah! Ah!

Mais acima, Ossaim, todo dobrado, deliciava-se também com os guinchos do seu porta-riso.

– Muito bem, é a guerra! – disse Xangô, ao chegar ao seu palácio.

No mesmo instante, o deus da justiça mandou chamar iansã, a deusa dos ventos.

– Já que o miserável não quer nos ceder o conteúdo da cabacinha, use o seu poder para trazer todas as folhas da mata até nós!

– Deixa comigo! – disse a deusa, soltando os cabelos e conjurando todos os ventos do mundo.

_Vão e voltem, ventos velozes! – disse ela, fazendo toda sorte de mandingas, de tal modo que logo um verdadeiro furacão se lançou na direção das matas de Ossaim.

– Que bagunça é esta? – disse ele pela boca do anão, assim que tudo começou a girar pela mata.

Agarrado às pernas do deus, Aroni tentava manter-se desesperadamente preso ao chão, enquanto o vento ao redor arrancava até a última folha das árvores.

Logo uma nuvem de folhas subiu aos céus e atravessou Oió inteira até chegar ao palácio do rei.

Todos os deuses saíram às ruas para comemorar o feito.

– Viva Iansã! Viva Xangô! – festejavam todos, junto com a ralé humana.

Uma chuva de folhas descia dos céus como o maná da outra mitologia.
Imediatamente, todos puseram-se a esfregar as folhas nas mais diversas partes do corpo, conforme a localização da dor, enquanto velhotas trotavam alegremente para casa a fim de preparar suas infusões milagrosas.

Infelizmente, por mais folhas que esfregasse, ou por mais bilhas de chá que tomassem, ninguém melhorava bulhufas dos seus padecimentos.

– Raios de folhas! Não funcionam! – disse Ogum, após esfregar mais de duzentas folhas no traseiro.

A maioria dos deuses já estava com a pele esfolada de tanta esfregação. Uma epidemia de diarréia veio associar-se também aos padecimentos, completando o desastre.

– Estas porcarias não servem pra nada! – disse Exu, atirando ao alto um punhado das folhas. – Não são as da cabacinha, eis o que é!

– A mim, só serviram pra dar alergia! – disse Oxum, sem conseguir parar de espirrar.

Uma urucubaca medonha parecia ter descido sobre a cidade, de tal modo que não houve outro jeito senão irem todos, outra vez, até a mata de Ossaim.

– Explique-se! – disse Xangô, despejando ao pé do deus o saco das folhas inúteis.

Ossaim explicou então – sempre pela boca do seu fiel porta-voz -, que as folhas não tinha poder açgum sem suas cantigas de encantamento.

– E se tentarem obtê-las a força terão em Oió, ainda hoje, a varíola! – disse o duende, sentado num cabungo, ao lado do deus, a balançar descansadamente a sua única perninha.

Ossaim mostrou Omulu a balançar-se na rede, ali próximo, com sua apavorante vestimenta de palha.

No mesmo instante, Xangô, como bom deus da justiça que era, cedeu.

– Está bem, você venceu – disse ele, com um sorriso amarelo.

– Belas palavras – disse Ossaim pela boca do fidelíssimo servo.

Então, num gesto de simpatia, o deus da cura resolveu dar uma folha a cada um dos deuses, junto com os respectivos ofós (que eram as cantigas de encantamento), para que curassem seus males.

E foi assim, na santa paz de Oxalá, que se encerrou o perrengue das folhas – embora haja quem jure ter visto Exu sair da mata, ainda a praguejar, com seu ogó visivelmente pendido.

(Extraído do livro: As melhores histórias da Mitologia Africana)

Com esse conto, podemos entender que cada conhecimento tem seu responsável, aquele que estudou, que é hábil a praticar determinado ofício. Isso fica bem claro ao se trabalhar com mitologia, já que cada um tem seu papel muito bem exposto.

Partindo desse conto, penso em algumas coisas que tenho visto em pouco tempo pra cá, algumas pessoas falando demais sobre assuntos os quais não tem competência e muito menos embasamento para falar. Ou então pessoas que se intitulam aquilo que não são… é muito triste ver por aí “profissionais” até mesmo de terapias alternativas, tão em alta hoje, ou em qualquer profissão que lide com pessoas, com a psique principalmente, atuando sem ao menos saber o que estão fazendo ou o que essa atitude irresponsável pode acarretar.

Fico feliz por ter essa preocupação sempre, e confesso, os contos de Ossaim são soa meus favoritos.

Fica aqui também uma homenagem à empolgação que estou em começar a aprender a lidar com minhas ervas e plantinhas, podendo aí ajudar bastante gente.

por hoje é isso.

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