Algumas considerações sobre a educação e os educadores

Para começar um texto sobre esse tema, que é hoje, polêmico, posso dizer que o que vou discorrer aqui são opiniões de educadores de verdade, e que sim, se sentem ofendidos com acusações como do vereador Dario Burro (DEM).

Ofender-se por que? É a pergunta chave aqui, já que diante de discursos que vemos circulando pela internet, quem de fato é educador não se ofende com acusações do tipo: o professor quer ter gastos maiores do que seu salário, ou o professor é covarde.

Como sabemos, minha formação é em história, e percebi que a educação era uma das minhas paixões quando dei aula de alfabetização de adultos, em uma formação de EJA na escola que estudei. Os alunos eram, em sua maioria, pessoas com mais de 55 anos que tinham intensas dificuldades de aprendizagem devido à falta de oportunidade de estudo que nosso sistema capitalista, que nos transforma em máquinas de produção, proporciona. Durante aquele período que decidi que seria educadora, pois ficava extremamente feliz em perceber os potenciais daquelas pessoas, em especial de um Sr. que eu sempre cobrava as lições por ver que ele poderia ler e escrever, mesmo que todo aquele universo era “muito complicado” de acordo com suas próprias palavras, e quando eu recebia um “muito obrigado” era o que eu tinha de mais gratificante. Esse trabalho era voluntário, e eu trabalhava cerca de 8, 10 ou 12 horas em loja de shopping para pagar as contas, ou seja, lindamente dentro do sistema capitalista. O fato de trabalhar voluntariamente e sustentar o sistema me torna uma educadora? Acho que não. O que torna é a valorização dos potenciais do outro, a forma de ensino, entre outras coisas.

O ensino hoje no Brasil está caótico, com escolas sem o mínimo de estrutura, progressão continuada, cada vez mais famílias desestruturadas de todos os lados (professores e alunos), professores despreparados, baixos salários, e muitos outros problemas.

Sobre a questão do salário, se formos pensar no tempo que o professor trabalha, estuda, prepara aulas, corrige trabalhos e provas, o salário é extremamente baixo. Diante de um sistema capitalista como o nosso, o salário é uma das motivações  para obtermos melhor desempenho dos funcionários, outros recursos poderiam ser trabalhos motivacionais, palestras, cursos, ou mesmo a abertura para que o professor possa se atualizar por conta própria. O salário base de um professor iniciante (ou seja, categoria O) é em média 1000,00, raramente passa dos 1200,00, o de um vereador é bem maior, nem preciso dizer. Trabalhando em um shopping, sem formação, ganhamos bem mais. Imagine manter uma família com filhos. De fato a situação é sim, bastante complicada. Em qualquer outra profissão, vemos essa desumanização. Posso citar o problema da saúde pública, ou até vinculada a convênios que vemos hoje, com médicos que te atendem em 5 minutos, lutando por melhores salários. E estes são uma categoria muito mais unida que professores.

Outro problema é a desestrutura familiar, hoje ainda mais comum. Professores que já vêm de famílias desestruturadas e alunos mais ainda. O que já vi de caso de violência em casa, abuso, maus tratos em geral é impressionante, e posso dizer, isso tudo é muito maior em casa do que por parte de professores dentro da escola. Hoje temos casos de alunos ameaçados por professores? sim, sem dúvida. E também muitos casos de alunos ameaçando professores, como já soube de alunos de 5° ou 6° série que fazem isso, o que piora com o aumento da idade.
Como venho de uma família de professores da rede pública, nas quais realizo algumas vezes trabalhos voluntários, sendo que hoje não atuo, conheço esses problemas de perto.

Nesse vídeo, Dario Burro acusa os professores de perversidade, ao alegar que eles tratam mal os alunos pobres para que estes continuem sem aprender para não disputar vagas no mercado de trabalho com os filhos deles, e ainda diz que depois acusamos os políticos de maquiavélicos; então me pergunto: Os filhos de todos os professores estão na escola particular? Tem professor que mal tem dinheiro para pagar as contas. A grande diferença é que os professores são presentes na educação de seus filhos, independente da escola. Ainda aqui posso dizer que não devemos culpabilizar os alunos que não tem interesse ou que não tem os pais presentes, afinal somos todos parte do mesmo sistema, esse sim que deve ser culpabilizado por algo.
Ouvimos de alunos diariamente, “eu não estou nem aí, no final do ano eu passo mesmo”, e isso é culpa do aluno? Também não, esses são diariamente condicionados a pensar dessa forma em nosso sistema. O mercado de trabalho é disputado sim, inclusive para os professores, sendo que muitos têm medo de lutar por melhores condições de trabalho e melhores salários, pois não podem ficar sem o salário que sustenta a si e à sua família.
“Conhecimento é poder” Dario diz em seu discurso. Infelizmente o conhecimento é poder, e temos pessoas que afirmam e apoiam isso. Dario diz que os alunos devem estudar para mostrar para os professores que não precisam deles. Precisam de quem então? De políticos que cada vez mais acabam com sistema educacional? Precisam de sistema de cotas em universidades públicas para entrarem sem conseguir acompanhar os que estão lá e vieram de escolas particulares?  Não, o que precisamos é de uma escola pública com mais recursos (ah, aqui cabe lembrar a questão da verba destinada à educação, que não é investida para a melhoria da mesma.), com professores que tenham condições de se atualizar, estudar e trabalhar a quantidade de horas justa para proporcionar a seus alunos aulas que possam dialogar com seus interesses e pensar no conhecimento prévio do aluno (aí entramos na questão de ensino que Dario defende. A Pedagogia de Paulo Freire, como veremos no outro vídeo). Com dois cargos e 5o aulas isso torna-se inviável.
Precisamos de salas com menos alunos. Hoje a escola particular conta com o máximo de 25 alunos por sala, o que ainda é um número considerável, imagine as salas com 40, 50 alunos que temos na escola pública? Como, em 50 minutos de aula, podemos fazer toda a parte burocrática da escola e ainda se preocupar com a bagagem de cada um?

Este é outro ponto importante a ser pensado, e que é ignorado por Dario em seu discurso.

Ouvimos falar muito de construção no ensino (como diria o construtivismo piagetiano), temos que estudar Piaget para prestar um concurso por exemplo, porém o que vemos na escola é uma aplicação absurdamente errônea do que nos diz Piaget, e outros psicólogos e educadores (aqui cabe paulo Freire também).

Volto a questionar, são os professores que querem alunos alienados e sem perspectiva, ou é quem é responsável pelo sistema de ensino que os quer para que possamos ter cidadãos inconscientes de seu voto, que elejam candidatos que não sabem qual a função de um deputado, ou que elejam mulheres fruta, e pessoas que fazem muito barulho quando estamos com data de eleição bem próxima. Vale refletir sobre isso.

Uma educação interessante, trabalha o lúdico, a brincadeira com as crianças. Traz o que tem de mais “gostoso” do mundo delas para a realidade educacional e  trabalha em cima disso. Como nos mostra Vygotsky: “A criança não escreve versos ou desenha porque nela se revela um futuro criador mas porque nesse momento isso é necessário para ela e ainda porque em cada um de nós estão radicadas certas possibilidades criadoras.”
Agora pergunto? Como isso é possível em um sistema que ainda somos condicionados a ser robôs trabalhando no mesmo cargo, com funções alienadoras para outras pessoas? Já que não temos que questionar nada, para que desenvolver o aprendizado, virar cidadãos que questionam a sociedade e a política?
Para Vygotsky ainda: “O pensamento não é simplesmente expresso por palavras; é por meio delas que ele passa a existir”. Então volto a questão. Para que o conhecimento diante de nosso momento político atual? Se temos políticos eleitos que não sabem sequer ler, por que teremos cidadãos conscientes?

Tenho a felicidade de dizer que como educadores, tentamos sempre conscientizar nossos alunos do absurdo que se encontra a educação. E ainda tenho orgulho de dizer que conheço excelentes professores-educadores, de diferentes faixas etárias e que estiveram na escola em épocas diversas (alguns ainda estão), que sim, se preocupam com a situação da educação hoje, e que se desdobram para tentar trazer o que têm de melhor aos seus alunos, que muitas vezes precisam ser ouvidos e valorizados também.
Fico feliz como futura arteterapeuta em saber que poderei ajudar algumas crianças em escolas, como tentamos fazer, e de afirmar que somos educadores e ainda nos resta esperança na educação, não pelo nosso sistema educacional, e muito menos pela ação de políticos, mas sim através de nosso esforço e dedicação, mesmo com tantos problemas.

“Só podemos olhar o outro e sua história se temos conosco mesmo uma abertura de aprendiz que se observa, se estuda, em sua própria história.”
Madalena Freire   (sua pedagogia é incrível, assim como a de Paulo, mas impossível de ser aplicada na situação da escola pública atual)

Por enquanto isso é um pouco do que gostaria de dizer.

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